Mostrando postagens com marcador sociologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sociologia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Os Estranhos


 Cinthia Medeiros
cinthia_estevam@yahoo.com.br
Ciências Sociais - UFRN
Os Estranhos

 O Zygmunt Bauman é um intelectual polonês contemporâneo, que contribuiu com o pensamento sobre a pós-modernidade, algumas de suas idéias podem nos ajudar a analisar a tirinha acima, principalmente utilizando o livro “O Mal-estar da Pós-modernidade” o qual ele faz referência ao livro de Freud, “O Mal-estar na Civilização”.
Bauman diz que só a sociedade moderna pensou em si mesma como uma atividade da cultura ou da civilização. Por isso, para ele, seria pleonasmo usarmos a expressão “civilização moderna”. Assim como cultura ou civilização, modernidade aponta/estabelece beleza, limpeza e ordem. A idéia de pureza está ligada à idéia de ordem, na qual as coisas devem estar em seu devido lugar, seguindo normas previamente estabelecidas. “O oposto da ‘pureza’ – o sujo, o imundo, ‘os agentes poluidores’ – são coisas ‘fora do lugar’” (BAUMAN. p.14). Fora do lugar concebido pelos que buscam pelo ideal da pureza.
Os padrões e modelos de pureza mudam de uma época para a outra, de uma cultura para a outra. As pessoas que são obstáculos para a organização do ambiente são tratadas como sujeira, como uma espécie de estranho. Cada tipo de sociedade produz sua espécie de estranho, eles são vistos como uma ameaça à ordem social por serem pessoas que não se encaixam dentro dos padrões sociais (moralmente, esteticamente, etc).
Não há espaço para esse tipo de indivíduos, não há um lugar para os estranhos. As pessoas são consideradas estranhas porque possuem uma tendência a não se limitar às linhas da fronteira da ordem. Algumas pessoas nunca poderão ser “reparadas”, geralmente, essas elas são abandonadas, excluídas, ou até, fisicamente agredidas.
Bauman diz que a anulação desses indivíduos se deu paralelamente a constituição dos Estados, e a partir da constituição das nações novos estranhos surgiam. O sentimento de incerteza, dominante na pós-modernidade, não se limita ao próprio futuro dos indivíduos, mas ao futuro da sociedade em si, da maneira correta de viver nele e dos critérios do que é certo e errado na maneira de viver.
Esse sentimento é tido como uma condição de vida permanente e invencível, o que leva os indivíduos a viver sobre o medo. Não há garantias de um futuro seguro, tudo pode acabar da noite para o dia.
A mídia tem uma grande porcentagem nisso, a mensagem dos meios de comunicação carrega a indeterminação do mundo. Nada é sólido e duradouro, digno de confiança, inclusive a nossa própria imagem de nós mesmos que é facilmente demolida. Dessa forma, “os estranhos já não são autoritariamente pré-selecionados, definidos e separados, como costumavam ser nos tempos dos coerentes e duráveis programas de constituição da ordem administrados pelo Estado” (BAUMAN. p.36). Agora, eles são instáveis e voláteis.
Há uma necessidade de resolver o problema da identidade que é encorajada pelos meios de comunicação de forma instantânea, e que acaba levando a angústia, sendo esta um sintoma universal dos nossos tempos, que tem diversas conseqüências.
O estranho é odioso e temido. Portanto, quanto menos as pessoas controlam suas vidas e suas identidades, mais verão as outras como estranhos e mais freneticamente tentarão desprender-se deles como algo envolvente, sufocante, absorvente.
Para ter acesso/usufruir desses ganhos (ordem, pureza, etc) a civilização paga um alto preço, pois nada predispõem naturalmente os seres humanos a preservar a beleza, conservar-se limpo e respeitar a rotina da ordem. Portanto, na medida em que respeitam e apreciam a beleza, a limpeza e a ordem, sua liberdade e seus impulsos são bloqueados.
Freud diz que “A civilização se constrói sobre uma renúncia aos instintos sexuais e agressivos” e, portanto, os prazeres da vida vêm num pacote fechado com os sofrimentos e angústias, a satisfação com o mal-estar, a submissão com a rebelião. Dessa forma, a civilização assume um compromisso, uma troca que pode ser sempre renegociada, modificada.
A compulsão, a regulação, a supressão e a renúncia forçada apontadas por Freud como mal-estares da civilização da modernidade resultaram do excesso de ordem e de sua inseparável companheira, a escassez da liberdade.
A tirinha, do site Dr. Pepper, mostra como a sociedade pode tratar um estranho, um mendigo - por exemplo - de forma brutal. Ele começa a tornar-se invisível. Os estranhos não querem pagar o preço da liberdade, por isso são excluídos e julgados como corja e depois de um tempo, tornam-se invisíveis. Fica mais fácil tentar ignorá-los ao invés de aceitar o diferente. O autor da tirinha quis mostrar justamente isso, como o diferente, que fica a margem dos limites da ordem social são tratados mesmo que inconscientemente.
Hoje, diz Bauman, vivemos o tempo da desregulamentação. Os ideais de beleza, pureza e ordem não foram, por isso, abandonados, mas agora eles devem ser perseguidos através da espontaneidade do desejo e do esforço individuais.





BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Jorge Zahar. 1º Edição, 1999.

CACHORRINHO ATROPELADO. Disponível em: http://blog.drpepper.uol.com.br/?p=2036

E o Amor, Durkheim?!


O mar não é de Espanha
O mar não é de Holanda

Meu amor é uma anomia
Que ninguém ousaria provar
Sou parte de coisa nenhuma
Sou louco porque te amo
Com tantas outras pra amar

É um amor suicida
Que salta da ponte pro mar
Meu amor é uma loucura
Que não sabe navegar
Que a mim não é imposto
E que mesmo a contra gosto
Ignora minha vontade
Como a única deidade
Em que posso acreditar

“Brigam Espanha e Holanda”
Pelos direitos do mar
O mar é dos apaixonados
Que amam sem saber amar
Como um marujo em terra firme
Que se afoga embriagado
Por não entender o amor
Que Émile não soube explicar


Capitão Mouro
Ciências Socias - UFRN-Março de 2010

A Raposa e as Uvas


Minha mente era uma folha em branco
Preenchida pelas fábulas de Esopo
Pela Anabasis de Xenofonte
Pelos diálogos de Platão
Pelos tratados de lógica de Aristóteles

E “deliberadamente escudado ”
Por meu cérebro
Pensei ser uma “MÁQUINA LÓGICA"
E pensei que a LIBERDADE
Fosse “a dádiva maior da existência”

E como Xenofonte
Marcho em direção ao território do meu interior
E enfrento um exército de dez mil mercenários
Numa batalha de circunstâncias

E como a raposa de Esopo
Desdenhando das uvas
Pensei que a LIBERDADE
Fosse “a dádiva maior da minha existência”

Mas meu coração
Também era uma folha em branco
E se vê preenchido pelo desejo
De uma única mulher
E as mulheres são lindas e inteligentes
E me vi cativo de teu amor e de tua liberdade
E somente na tua plena liberdade de desejo
Que encontrei a minha própria liberdade
E pensei que a tua PLENA LIBERDADE
Fosse “a dádiva maior da minha própria existência”



Capitão Mouro
Inspirado na paixão de Stuart Mill por Harriet Tylor
Teoria Política II-UFRN

domingo, 12 de dezembro de 2010

Câmara Cascudo: sobre si mesmo

Apenas um provinciano incurável

"Nasci na rua das Virgens e o padre João Maria batizou-me no Bom Jesus das Dores, Campina da Ribeira, capela sem torre mas o sino tocava as Trindades ao anoitecer. Criei-me olhando o Potengi, o Monte, os mangues da Aldeia Velha onde vivera, menino como eu, Felipe Camarão. Havia corujas de papel no céu da tarde e passarinhos nas árvores adultas (...). Natal de 96 lampeões de querosene. Santos Reis da Limpa em janeiro. Santa Cruz da Bica em maio. Senhora d’Apresentação em novembro. Farinha de castanha e carrossel. Xarias e Canguleiros. (...). Tinha 13 anos quando veio a luz elétrica. Festas no Tirol. Violão de Heronides França. Livros. Cursos. Viagens. Sertão de Pedra e Europa.


Nunca pensei em deixar a minha terra.

Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço. Percepção medular da contemporaneidade.

Nossa casa hospedou a Família Imperial e Fabião das Queimadas, cantador que fora escravo. (...) Filho único de chefe político, ninguém acreditava no meu desinteresse eleitoral. Impossível para mim dividir conterrâneos em cores, gestos de dedos, quando a terra é uma unidade com sua gente. (...) Dois homens quiseram fixar-me fora de Natal: Getúlio Vargas no Rio de Janeiro e Agamenon Magalhães, no Recife. Jamais os esquecerei porque nada pedira. Alguém deveria ficar estudando o material economicamente inútil. Poder informar dos fatos distantes na hora sugestiva da necessidade.

Fiquei com essa missão.

Andei e li o possível no espaço e no tempo. Lembro conversas com os velhos que sabiam iluminar a saudade. Não há recanto sem evocar-me um episódio, um acontecimento, o perfume duma velhice. Tudo tem uma história digna de ressurreição e de uma simpatia. Velhas árvores e velhos nomes, imortais na memória.

Em 1946 fiz parte de uma comissão enviada pelo Ministério das Relações Exteriores ao Uruguai. Éramos três: Aluísio de Castro, Angione Costa e eu, único sobrevivente. Voltando, contou-me Aluísio de Castro que Afrânio Peixoto (escritor baiano), sabendo da expedição cultural, dissera num leve riso: "E ele deixou o Rio Grande do Norte? Câmara Cascudo é um provinciano incurável!".

Encontrara meu título justo, real e legítimo.

Provinciano incurável! Nada mais."

(Luís da Câmara Cascudo falando de si mesmo em A Província, edição comemorativa aos seus setenta anos de idade e cinquenta de atividade literária)

O Conceito de Cultura

Rogério Felinto da Silva
rogfelinto2@hotmail.com
Graduando do curso de Ciências Socias, da UFRN.


 O conceito de cultura é algo bastante instigante, pois é algo que quanto mais se tenta conceituar, mais se esvai pelas pontas de nossos dedos. Muitos autores se aventuraram nesta perspectiva, limitando o termo a alguma interpretação. No entanto, Ninguém como Terry Eagleton conseguiu expressar bem o significado deste termo, a partir de uma reflexão dialética, apresentando formas contraditórias, para a partir daí termos uma síntese do que poderia ser cultura, num determinado contexto, sem no entanto conceituar.
A palavra “cultura” designa, num primeiro momento “cultivo”, “plantação”, algo que nasce e se desenvolve naturalmente. Aqui já aparece uma das grandes discussões, qual a diferença entre natureza e cultura. Se uma existe sem a outra, etc. No entanto, uma vem da outra e ambas se complementam. Desta maneira, a cultura transfigura a natureza, parafraseando Terry Eagliton. Ou, citando Cuche (1996, p.10) “a cultura torna possível a transformação da natureza”. Ou, “A natureza, no homem, é inteiramente interpretada pela cultura” (CUCHE, p. 10). Outro fator a ser considerado, a palavra está ligada a “cultus”, do latim, que vem o culto religioso, dá-se aqui a dimensão do sagrado na palavra, a relação com o transcendente. Daí também a idéia de “espírito”, a cultura como espírito de um povo. Muitas definições surgem, como a de Tylor, como “um conjunto complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e as outras capacidades ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade” (CUCHE, 1996, p.35 apud TYLOR, 1871, p.1). Tylor trabalhava com a noção de cultura como expressão da totalidade da vida social, contrariamente as definições restritivas e individualistas. Outros como Franz Boas, detinham-se na particularidade da cultura. A questão de culturas específicas.
Discussões geradas a partir de então, causa inquietações, como o caso da baixa e alta cultura, discutido por Terry Eagliton. Como podemos aceitar dogmaticamente como padrão de cultura aquilo que foi cristalizado e imposto por classes dominantes européias? Como algo pode ser clássico, pelo simples fato de ter vindo de lá, claro que considerando o caráter de sua universalização. O problema é que dificilmente produtos ou ações culturais advindos de classes subalternas, não européias, alcancem tão universalidade.
Algumas considerações de Eagleton vale lembrar, como na cultura existe uma filosofia, uma teologia, uma política, uma economia etc. Há também uma pedagogia ética, na qual pretende preparar cidadãos éticos. Ela comporta tudo isso, e deve ser estudada sob essas várias óticas.
Raimund Willians descreve diferenciando os aspectos da cultura dando ênfase a cultura como convergência de interesses:
A ênfase no espírito formador de um de vida global, manifesto por todo o âmbito das atividades sociais, porém mais evidente em atividades “especificamente culturais” – uma certa linguagem, estilos de arte, tipos de trabalho intelectual; e ênfase em uma ordem social global no seio da qual uma cultura específica, quanto a estilos de arte e tipos de trabalho intelectual, é considerada produto direto ou indireto de uma ordem primordialmente constituída por outras atividades sociais. (WILLIANS, 2008, 10-11).

Essas posições são classificadas como materialistas (atividades primárias) e como idealistas (cultura como espírito formador,). O autor enfatiza a convergência de interesses exemplificada pelo termo cultura em sua constante e ampla gama de ênfases relacionais. Raimund Willians faz um recorte, e escolhe as artes para trabalhar a produção cultural, vendo na arte este fato social, no qual poderíamos observar a cultura como um todo.
Já Karl Mannheim apresenta uma intelligentsia, como estrato social, uma característica de um grupo específico, que, respaldado por um conhecimento que dá autoconsciência das coisas, age de modo superior, referendando, e não se prendendo a grupos, pois se encontra acima deles. Esta autoconsciência, intelligentsia, realizada a partir da educação, gera homens preparados para a vida, buscando uma democratização do conhecimento, a fim de libertar quem se encontra em situação inferior, levando-os a uma autonomia e, portanto, a mudança social.
Claro, a intelligentsia parte do ceticismo, como afirma Mannheim, a partir do momento que não se acredita em certas verdades, questionando-as, e criando outras formas de ver a realidade. A intelligentsia constitui-se de uma forma de conhecimento de um período histórico, aja visto que o processo cultural está na história, sofrendo mudanças, atualizações, sínteses, e cada época possui sua intelligentsia que referenda-a.
Portanto, cultura está aí, se refazendo momentaneamente, indo e vindo, produzindo e reproduzindo artefatos, manifestado em ações, gestos e obras culturais, bem como nas instituições que as produzem. Cultura nunca poderá se limitar a um conceito, aja visto sua complexidade e imensidão. Nós, uma vez envolto e essa intelligentsia, enquanto aqueles que possuem o mínino de conhecimento, para refletir a cultura, sabemos que não estamos isentos das ideologias, ou seja, visões conservadoras, como também de utopias, ou melhor, mudanças. Fazemos parte da constituição da cultura, que é realizada a cada momento.
Dessa maneira, estudar a cultura é pensar sobre nossa condição de seres humanos. Nossa auto-definição enquanto seres que ao mesmo tempo que recebe nossa estrutura da natureza, muito dela é apropriada pela cultura. É muito interessante pensar sobre isso. Até que ponto nossas ações são resultados de livres escolhas? Ou tudo que fazemos são resultado desta gama de relações que é a cultura?
Muitas questões ficam sem respostas. O fato é que a cultura é esta gama de relações, de interesses, como dizia Willians, que envolve a todos, nos fazendo adentrar no meio e sendo modificado por ele.
Ela está em todo lugar, em todas as ações, instituições, em nossa toda constituição. Até o mais simples gesto nosso é cultural. Isso é fascinante, sobretudo quando vemos que há essa luta de interesses, criação e movimento e resistência e conservação. A cultura diariamente se gladiando, perdendo e ganhando espaços, formas. Nós somos o produto desta cultura que interage simultaneamente, sofrendo influencias e influenciando. O que seria, então o homem, senão essa mistura de símbolos, gestos, rituais, comportamentos, frutos das mudanças e processos culturais. A cultura seria essa toda poderosa, que manda e desmanda nos homens, ditando as regras por onde ele deve seguir, como deve amar, se comunicar. Nada seria realizado livremente, mas totalmente influenciado pela cultura.
O homem é auto-definido pela cultura. “Ages conforme a cultura que recebestes”.


Bibliografia:
CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: Edusc, 2002.
MANNHEIM, Karl. Sociologia da cultura. São Paulo: Perspectiva. Ed. Da universidade de São Paulo, 1941.
WILLIANS, Raimund. Cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

A Cidade - Chico Science

O sol nasce e ilumina
As pedras evoluídas
Que cresceram com a força
De pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam
Vigiando as pessoas
Não importa se são ruins
Nem importa se são boas


E a cidade se apresenta
Centro das ambições
Para mendigos ou ricos
E outras armações
Coletivos, automóveis,
Motos e metrôs
Trabalhadores, patrões,
Policiais, camelôs


A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce


A cidade se encontra
Prostituída
Por aqueles que a usaram
Em busca de uma saída
Ilusora de pessoas
De outros lugares,
A cidade e sua fama
Vai além dos mares


E no meio da esperteza
Internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos


A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce


Eu vou fazer uma embolada,
Um samba, um maracatu
Tudo bem envenenado
Bom pra mim e bom pra tu
Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus


Num dia de sol, recife acordou
Com a mesma fedentina do dia anterior.
Composição: João Higíno Filho




Composição: João Higíno Filho

Experiência e Subjetividade: Como Ambas Interferem no Trabalho de Campo

Rogério Felinto da Silva
rogfelinto2@hotmail.com
Graduando do curso de Ciências Socias, da UFRN.

Partindo de noções prévias, poderíamos definir experiência, filosoficamente falando, como um contato perceptual e cognitivo, com informações exteriores a nós, gerando um novo saber a respeito de algo. Passando pelo pensamento cartesiano, tudo que se apresenta a nossas faculdades mentais, tais como memória, percepção, imaginação, introspecção, é considerado experiência. Vale salientar a involuntariedade da experiência, uma vez que ela não se dá a partir da vontade do indivíduo.
Na perspectiva de nosso estudo, experiência está ligada a origem de conhecimento, e, portanto, parte de uma faculdade:
O conhecimento é alcançado através da visão: a visão é uma apreensão direta, imediata de um mundo de objetos transparentes. De acordo com essa conceitualização, o visível é privilegiado; o ato de escrever é, dessa forma, colocado a seu serviço. Ver é a origem do saber. Escrever é reprodução, transmissão – a comunicação do conhecimento conseguido através da experiência (visual, visceral) (SCOTT, p. 23-24).

Começamos adentrar no escopo de nosso estudo: O trabalho de campo como transmissão de conhecimento a partir de experiências. Retomaremos.
Por subjetividade, poderíamos elencar vários conceitos utilizados pela psicologia, principalmente a psicologia social, mas nos atentaremos a algo mais próprio ao nosso estudo. Ela poderia ser compreendida, basicamente, como “meu mundo”, ou seja, o conjunto de minhas experiências pessoais, algo particular, algo que diz respeito a meus contatos íntimos, formando meu “eu interior”. Portanto, diz respeito à construção de crenças e valores particulares que podem ser compartilhadas na dimensão cultural, constituindo a experiência histórica e coletiva de grupos e populações. Scott citando Teresa de Lauretis diz: “Experiência é o processo pelo qual, para todos os seres sociais, a subjetividade é construída” (p. 31). Sendo assim, a nossa subjetividade (nosso mundo interior) é o resultado de nossas experiências, através da qual somos configurados e colocados na realidade social.
Para Bourbieu a construção da subjetividade está ligada ao processo de socialização primária, ou seja, por um processo de inculcação, de interioridade da exterioridade, no qual o indivíduo gera sua subjetividade a partir de um mundo simbólico interiorizado na infância. “A socialização é o processo por meio do qual o indivíduo é introduzido no mundo objetivo de uma sociedade ou de um setor dela” (BENTO, 1998, p. 8). Este é determinado por um habitus, sistema de disposição durável, que é anterior a ele. E que o definirá seu papel dentro da estrutura social.
O trabalho de campo é a descrição sensível e uma forma de interpretar culturas, baseado na observação participante. Trata-se de transformar em textos experiências vividas.

A observação participante obriga seus praticantes a experimentar, tanto em termos físicos quanto intelectuais, as vicissitudes da tradução. Ela requer um árduo aprendizado lingüístico, algum grau de envolvimento direto e conversação, e frequentemente um “desarranjo” das expectativas pessoais e culturais (CLIFFORD, 1998, p. 20).

Trata-se de um meio de produzir conhecimento a partir de um intenso envolvimento intersubjetivo.
No entanto, traz em si uma característica marcante: “a escrita etnográfica encena uma estratégia específica de autoridade” (CLIFORD, p. 21). Há autores como Clifford Geertz que questiona tal autoridade. Para ele, todo texto ou todo trabalho de campo é uma interpretação, uma leitura que o pesquisador faz de seu objeto de estudo. Portanto, não condiz coma realidade.
Outra característica muito importante a ser levantada é “o desenvolvimento da ciência etnográfica não pode, em última análise, ser compreendido em separado de um debate político-epistemológico mais geral sobre a escrita e a representação da alteridade” (CLIFFORD, 1998, p. 20). Ao mesmo tempo que o antropólogo interpreta a cultura do outro, deve levar em consideração a dimensão política e científica naquele ato. Aja visto a dimensão de autoridade imanente ao trabalho de campo.
Todavia, um problema se levanta: quando é dado ênfase à evidência da experiência. “O que poderia ser mais verdadeiro, afinal, do que o relato do próprio sujeito sobre o que ele vivenciou?” (SCOTT, p. 25). Eis o grande problema a ser resolvido. Não se pode, de maneira nenhuma, ter como verdadeiro relatos de experiências sem, no entanto, levar em consideração o fator histórico. Devemos historicizar a própria experiência, ou seja, sair da experiência, tê-la de forma objetiva, questionando, criticando, sem ter como certo e verdadeiro o discurso dos que estão sendo pesquisados. Temos que sair da fala (discurso) e historicizar, passar por uma visão histórica mais profunda, uma vez que os discursos dos estudados pode muitas vezes ser alterados por algum motivo, seja por interesse, por vergonha, omissão, etc. E, principalmente, porque os discursos são frutos de experiências pessoais, que muitas vezes não condiz com a realidade. Deve-se desnaturalizar os discursos.
Precisamos dar conta dos processos históricos que, através do discurso, posicionam sujeitos e produzem suas experiências. Não são os indivíduos que tem experiência, mas os sujeitos é que são constituídos através da experiência. A experiência [...] torna-se não a origem de nossa explicação, não a evidência autorizada (porque vista ou sentida) que fundamenta o conhecimento, mas sim aquilo que buscamos explicar, aquilo sobre o qual se produz conhecimento. Pensar e experiência desta forma é historicizar. (SCOTT, p. 27).

Ora, “historicizar é exatamente fazer uma análise crítica de todas as categorias explicativas que normalmente não são questionadas” (p.28), inclusive a experiência.
Desta maneira, o que deve ser evitado é a naturalização de informações, como também mudar o enfoque de nossa história:

De uma tendência a naturalizar a “experiência”, através da crença em uma relação imediata entre as palavras e as coisas, para uma outra que trata todas as categorias de análise como contextuais, contestáveis e contingentes (SCOTT, p. 46).

Portanto, o pesquisador, antropólogo, ao realizar um trabalho de campo, na tentativa de mapear, de interpretar uma cultura, ele deverá levar em consideração a experiência de cada indivíduo, o relato de suas subjetividades, sem, todavia, tê-las como verdade, mantendo ao mesmo tempo uma relação de proximidade e de distanciamento objetivo.



Referencias bibliográficas

SCOTT, Joan W. Experiência. IN: SILVA, A. L. da, LAGO, M. C. de S. e RAMOS, T. R. O . (orgs.) Falas de gênero. Florianópolis: Mulheres, 1999, p. 21-56.
CLIFFORD, James. Sobre a autoridade etnográfica. In_: Experiência etnográfica: Antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro. UFRJ, 1998.
BENTO, Berenice. Um certo mal-estar: queijas e perplexidades masculinas. UnB, 1998.

A Vida É Desafio - Racionais Mc's

"Tem que acreditar.
Desde cedo a mãe da gente fala assim:
'Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.'
Aí passado alguns anos eu pensei:
Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor como ?
Ou melhora ou ser o melhor ou o pior de uma vez.
E sempre foi assim.
Você vai escolher o que tiver mais perto de você,
O que tiver dentro da sua realidade.
Você vai ser duas vezes melhor como?
Quem inventou isso aí?
Quem foi o pilantra que inventou isso aí ?
Acorda pra vida rapaz"
É necessário sempre acreditar que o sonho é possível,
Que o céu é o limite e você truta é imbatível.
Que o tempo ruim vai passar é só uma fase,
E o sofrimento alimenta mais a sua coragem.
Que a sua família precisa de você
Lado a lado se ganhar pra te apoiar se perder.
Falo do amor entre homem, filho e mulher,
A única verdade universal que mantém a fé.
Olhe as crianças que é o futuro e a esperança,
Que ainda não conhecem, não sente o que é ódio e ganância.
Eu vejo o rico que teme perder a fortuna
Enquanto o mano desempregado, viciado se afunda
Falo do enfermo irmão, falo do são, intão
Falo da rua que pra esse louco mundão
Que o caminho da cura pode ser a doença
Que o caminho do perdão as vezes é a sentença
Desavença, treta e falsa união
A ambição como um véu que cega os irmão
Que nem um carro guiado na estrada da vida
Sem farol no deserto da trevas perdida
Eu fui orgia, ego louco, mas hoje ando sóbrio
Guardo o revólver quando você me fala em ódio
Eu vejo o corpo, a mente, a alma, espírito
Ouço o refém e o que diz la no ponto lírico
Falo do cérebro e do coração
Vejo egoísmo preconceito de irmão pra irmão
A vida não é o problema é batalha desafio
Cada obstáculo é uma lição eu anuncio
É isso ai você não pode parar
Esperar o tempo ruim vir te abraçar
Acreditar que sonhar sempre é preciso
É o que mantém os irmãos vivos
Várias famílias, vários barracos,
Uma mina grávida
E o mano ta la trancafiado
Ele sonha na direta com a liberdade
Ele sonha em um dia voltar pra rua longe da maldade
Na cidade grande é assim
Você espera tempo bom e o que vem é só tempo ruim
No esporte no boxe ou no futebol alguém
Sonhando com uma medalha o seu lugar ao sol porém
Fazer o que se o maluco não estudou
500 anos de brasil e o brasil aqui nada mudou
"desesperô aí, cena do louco,
Invadiu o mercado farinhado armado e mais um pouco"
Isso é reflexo da nossa atualidade
Esse é o espelho derradeiro da realidade
Não é areia, conversa, chaveco
Porque o sonho de vários na quebrada é abrir um boteco
Ser empresário não dá, estudar nem pensar
Tem que trampar ou ripar pros irmãos sustentar
Ser criminoso aqui é bem mais prático
Rápido, sádico, ou simplesmente esquema tático
Será extinto ou consciência
Viver entre o sonho e a merda da sobrevivência
"o aprendizado foi duro e mesmo diante desse
Revés não parei de sonhar fui persistente
Porque o fraco não alcança a meta
Através do rap corri atrás do preju
E pude realizar meu sonho
Por isso que eu afro-x nunca deixo de sonhar"
Conheci o paraíso e eu conheço o inferno
Vi jesus de calça bege e o diabo vestido de terno
Mundo moderno, as pessoas não se falam
Ao contrário, se calam, se pisam, se traem, se matam
Embaralho as cartas da inveja e da traição
Copa, ouro e uma espada na mão
O que é bom é pra si e o que sobra é do outro
Que nem o sol que aquece, mas também apodrece o esgoto
É muito louco olhar as pessoas
A atitude do mal influencia a minoria boa
Morrer a toa que mais, matar a toa que mais
Ser presa a toa , sonhando com uma fita boa
A vida voa e o futuro pega
Quem se firmo falo
Quem não ganho o jogo entrega
Mais um queda em 15 milhões
Na mais rica metrópole suas varias contradições
É incontável, inaceitável, implacável, inevitável
Ver o lado miserável se sujeitando com migalhas, favores
Se esquivando entre noite de medo e horrores
Qual é a fita, a treta, a cena ?
A gente reza foge continua sempre os mesmo problemas
Mulher e dinheiro tá sempre envolvido
Vaidade, ambição, munição pra criar inimigo
Desde o povo antigo foi sempre assim
Quem não se lembra que abel foi morto por caim
Enfim, quero vencer sem pilantrar com ninguém
Quero dinheiro sem pisar na cabeça de alguém
O certo é certo na guerra ou na paz
Se for um sonho não me acorde nunca mais
Roleta russa quanto custa engatilhar
Eu pago o dobro pra você em mim acreditar
"é isso ai você não pode parar
Esperar o tempo ruim vir te abraçar
Acreditar que sonhar sempre é preciso
É o que mantém os irmãos vivos"
Geralmente quando os problemas aparecem
A gente está desprevenido né não
Errado
É você que perdeu o controle da situação
Perdeu a capacidade de controlar os desafios
Principalmente quando a gente foge da lições
Que a vida coloca na nossa frente
Você se acha sempre incapaz de resolver
Se acovarda morô
O pensamento é a força criadora
O amanha é ilusório
Porque ainda não existe
O hoje é real
É a realidade que você pode interferir
As oportunidades de mudança
Ta no presente
Não espere o futuro mudar sua vida
Porque o futuro será a conseqüência do presente
Parasita hoje
Um coitado amanha
Corrida hoje
Vitória amanha
Nunca esqueça disso.




Composição: Intro De Afro-x 509/e

O Ensino de Sociologia e a Formação de Alunos Mais Conscientes

Maísa Marchetti Barbosa (UEL) 
maisa.marchetti@yahoo.com.br 
Prof.º Dr. César Augusto Carvalho (Orientador)


A educação no modelo Neoliberal 

   Para analisarmos o atual sistema educacional, no que tange o Ensino Médio, é preciso examinar a Reforma Educacional iniciada no governo Fernando Henrique Cardoso, período em que os acordos  internacionais  tornaram-se marca na suposta democratização dos acessos à saúde, à moradia, à educação. Era a abertura da economia à iniciativa privada, que substituía o Estado nas áreas na qual o mesmo é considerado ineficiente. 
Entendíamos essa cruzada reformista, na qual se empenhava seriamente o governo de Fernando Henrique Cardoso como uma ação política estratégica para a aceleração das   mudanças  sociais necessárias à  nação em face da matriz  política, teórica e ideológica do  projeto de governo de FHC, caracterizada centralmente, pela dependência ao capital internacional. (SILVA JÚNIOR, 2002, p.204). 
   Através desta racionalidade que tem como pressuposto a administração-eficiente, o governo de FHC criou o consenso em que democracia e desenvolvimento constituem a essência do discurso. É a transformação do Estado em um Estado gestor. 
   Essa reforma estrutural teve impactos na esfera educacional. No caso do Ensino Médio, a reforma foi tida como ação política para mudança social, em que os elementos fundantes para essas mudanças foram a economia e o trabalho. Logo, a Educação não é apenas o receptáculo desse consenso, mas também um reprodutor deste modelo.

   A educação, esfera formativa do ser social, passa a expressar o novo paradigma político centrado no epistêmico e na busca do consenso, e toma a realidade social e natural como dada. Elas são, dessa forma e por alguma razão, de ordem metafísica e qualquer conflito deve ser superado num consenso produzido por intermédio da democracia comunicativa, sem questionamentos das contradições que produzem nossa realidade social por meio de relações sociais que se materializam em práticas sociais de qualquer tipo. (....). 
A  realidade  social  contraditória,  histórica  e  produzida  pela  atividade  humana  é negada e é tomada como algo dado que justifica nossos valores, nossas crenças. (...)
Trata-se  de  um  movimento  teórico  de  adaptação  às  mudanças  sociais,  sem questionar as razões dessas transformações. (...)
O  conhecimento orientado pela  existência humana  cede  lugar  à  instrumentalização pelo social naturalizado por meio das convenções que orientam a existência humana. (SILVA JÚNIOR, 2002, p.211-212).


A juventude no contexto educacional

   E  é  imerso  nessa  realidade  educacional  que  está  o  jovem  estudante  do ensino médio,  foco de nossa análise, porém  essa  juventude não é homogênea,  e  como  tal  é produto desta mesma sociedade, ou seja, é uma construção social.
   Ao ser definida como categoria social, a juventude torna-se, ao mesmo tempo, uma representação sócio-cultural e uma situação social  (novamente no  sentido dado por Mannheim).  Ou  seja,  a  juventude  é  uma  concepção,  representação  ou  criação simbólica,  fabricada pelos  grupos  sociais ou pelos próprios  indivíduos  tidos  como jovens, para significar uma série de comportamentos e atitudes a ela atribuídos. Ao mesmo tempo, é uma situação vivida em comum por certos indivíduos. (GROPPO, 2000, p. 7-8).
   Outro  aspecto  levantado  pelo  Luis  Antonio  Groppo  (2000)  é  que  a percepção  de juventude  também  é  diferentemente  vivida  com  relação  aos  gêneros, mesmo quando estes estão em uma mesma classe social.
   Outra  marca  da  juventude  está  na  construção  de  identidades,  que  se diferenciam de acordo com o estilo adotado por cada grupo. A Escola, neste caso é o aparelho do Estado que ajuda o jovem a se inserir na sociedade, como analisado por Eisenstadt, citado por Groppo (2000):
Eisenstadt diagnostica como problemática a passagem da  infância a maturidade na modernidade,  dadas  as  dificuldades  que  os  grupos  etários  juvenis  encontram para construírem funções sociais realmente integradas para os indivíduos jovens, em uma sociedade baseada em critérios universalistas, de desempenho e especialização. A  escola, segundo  Eisenstadt,  foi  criada  para  preparar  o  indivíduo  em  relação  à grande  especialização  econômica  e profissional da  sociedade moderna.  (GROPPO, 2000, p.43).
   E  estar  inserido  na  sociedade,  hoje,  é  estar  inserido  no  Mercado  de Trabalho. Pensando essa  lógica, a LDB 9.394/96 sanciona na seção “Do Ensino Médio”, no artigo n.º 35
“II - a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade as novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores”.


A obrigatoriedade do Ensino de Sociologia

   A disciplina Sociologia, no Ensino Médio, tem travado uma luta no interior  da Instituição  Educacional  por  um  lugar  maior.  A  obrigatoriedade  nos  currículos  foi promulgada em 2007, abrindo mecanismos tanto para a luta de uma valorização da disciplina.
   A Escola, a organização das atividades  letivas, o espaço (tanto físico como intelectual) que o professor detém reflete esse momento da disciplina na Escola, ou seja, dessa luta por  espaços  iguais. E  esse  contexto  reflete  também  nas  percepções  que  os  alunos têm tanto da disciplina como da Escola.
   Florestan Fernandes (1977) em seu texto O Ensino da Sociologia na Escola Secundária Brasileira,  já elegia o ensino de sociologia como uma das  formas de divulgação dos conhecimentos  sociológicos  e  para  a  formação  de  indivíduos mais  capazes  de integrar civicamente a sociedade, ou seja,  indivíduos mais conscientes de seus direitos e deveres de cidadão.


O objeto da pesquisa

   Este trabalho, portanto, é uma tentativa de verificar empiricamente, isto é na prática, na realidade, aquilo que compreendemos  teoricamente: a educação, objeto de análise dos clássicos. Com essa experiência pudemos apreender o processo de Educação, o ensino de Sociologia e o significado disso para os estudantes do Ensino Médio.
   A  Educação,  como  uma  Instituição,  traz  consigo  as  demandas  do  que  se pretende e  o  que  se  tem  como  sociedade  e  realidade. O Ensino  de Sociologia  dentro  desse processo  é uma das  ferramentas para desnaturalizar  e  estranhar  aquilo que  é oferecido para esses jovens como determinado, como natural.
   Em  uma  observação  pude  analisar  como  os  alunos  percebem  e  atribuem importância  ao  espaço  proporcionado  pelas  aulas  de Sociologia  para  debaterem  a realidade que  os  cerca. Acredito  que  é  apenas  o  início  de  uma  jornada,  já  que apesar  de  existir  no Estado do Paraná por algum  tempo o Ensino de Sociologia, a obrigatoriedade sancionada no ano  passado  traz  novo  fôlego,  principalmente  aos profissionais  da  área  e  para  aqueles  que serão os futuros profissionais.


As aulas de Sociologia

   O Colégio Estadual José Aloísio Aragão ((Colégio de Aplicação da Universidade Estadual de Londrina) é uma escola privilegida se tomarmos o ensino de Sociologia como eixo, diferente de outros colégios estaduais. O Colégio de Aplicação possui o Ensino de Sociologia nos três anos do Ensino Médio, ou seja, desde o primeiro ano os alunos tomam contato com a disciplina.
   O  livro  didático  do  Estado  é  apenas  um  dos  materiais  utilizados  pela professor nas aulas que também utiliza recursos audiovisuais como filmes e músicas. E outra ferramenta  se  constitui nos debates, onde os  alunos podem  expressar  suas opiniões sobre  o tema e conteúdo das aulas.


Conhecendo os alunos do 1º ano do Ensino Médio-turma B

   O  primeiro  ano  do  ensino  médio,  turma  B,  do  Colégio  Aplicação  é composto, em média, de 35 a 40 alunos, equilibrada em número de meninas e meninos. Para apreender como eles assimilam o ensino de Sociologia realizei a observação participante, pois no período cumpri a observação das aulas e a prática da regência. Essa prática do exercício de lecionar  nos  aproxima  dos  alunos,  intervindo  de  forma  efetiva,  no  sentido  do  esforço  de colocar próximo à realidade deles os temas e conteúdos da sociologia. 
   Outra ferramenta utilizada foi um questionário, no qual abordava os anseios dos  alunos  sobre  as  aulas  de  Sociologia;  quais  os  temas  que  eles  gostariam  que  as  aulas tratassem,  a  opinião  sobre  a  escola  e  se  as  aulas  de  sociologia  os  tornam  pessoas  mais conscientes.
   A partir destes questionários, o que pude  entender  é que os  alunos de  um modo geral, gostam da disciplina e dos temas abordados, como podemos perceber na resposta de uma aluna: “Eu penso que as aulas de Sociologia são muito  interessantes pois nos  tiram da  alienação  e  nos  proporcionam 'criticar’  além  da  primeira  impressão,  ou  seja, buscar raízes. Porém, alguns temas abordados em sala são inadequados (na minha opinião) a jovens da  nossa  faixa  etária”. Quanto  à  opinião  sobre  a  Escola,  muito  deles  colocam  que  esta instituição é importante na preparação para a vida, mas precisa rever sua forma de atuação, foi o que pudemos perceber na resposta de um aluno sobre a escola: “Uma  instituição atrasada que  serve  para  nos manter  na  linha”. O  que  nos  remete  a Emile Durkheim,  que  coloca  a Escola como a instituição fundamental para a formação de indivíduos mais harmônicos com a sociedade.
   Sobre a última questão abordada no questionário, se as aulas de sociologia os  fazem  pessoas  mais  conscientes,  os  alunos  responderam  que  sim, que  as  aulas de sociologia os  auxiliam na  formação  crítica de um  ser –  como o  explicitado na  fala de uma aluna: A sociologia me ensinou a ser mais crítica, a ter uma visão mais ampla de tudo, não só ficar pensando sobre as coisas do ‘meu mundinho’.   


Considerações finais

   Este artigo é um esforço para a apreensão e compreensão de como se efetua o processo de aprendizagem, em especial da Sociologia pela juventude(s) de hoje.
   Podemos perceber que os jovens anseiam por mudanças, as quais devem se dar  no  interior  das Escolas.  Na  opinião  deles,  por  sua  vez,  a  Escola  não  acompanhou  o advento  da  modernidade  e as  novas  formas  de  comunicação,  o  que  nos  remete  as considerações que Florestam Fernandes fazia ao ensino secundário no Brasil.

O  ensino  secundário  é  formativo  por  excelência;  ele  não  deve  visar  a  acumulação enciclopédica de  conhecimentos, mas  a  formação  do  espírito  dos  que  os  recebem. Torna-se,  assim,  mais importante  a  maneira  pela  qual  os  conhecimentos  são transmitidos, que o conteúdo da transmissão (FERNADES, 1977, p.110).
                                                           
   O  que  nos  leva  a mais  uma  reflexão:  como  o  ensino  de  sociologia  pode reverter este quadro? O que pudemos perceber, é que a utilização de outros meios, além do ‘quadro negro’ para a transmissão do conteúdo, aproximou os alunos da aula, ou seja, eles se envolviam mais no debate, pois querem que suas opiniões sobre a realidade que os cerca seja ouvida e compartilhada.
   A sociologia neste caso os desperta para a  realidade, como o colocado por Flavio Sarandy (REFERÊNCIA). A apropriação por parte dos alunos de um ‘modo de pensar’ através  do  contato com as  diversas  teorias  e  perspectivas  sociológicas, proporcionaria  a aprendizagem do modo de pensar. Um modo de pensar que pode ampliar a compreensão da historicidade do conhecimento, ou seja, o aluno, através de exercício proposto apreenderia a dinamicidade e complexidade da vida. 


Referências 
DURKHEIM,  Emile.  Educação  e  Sociologia.  São  Paulo: Melhoramentos;  Rio  de Janeiro: Fundação Nacional de Material Escolar, 1978;
FERNANDES, Florestan. A Sociologia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1977;
GROPPO, L. A. Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas. RJ:
DIFEL, 2000;
MALINOWSKI, Bronislaw Kasper. Argonautas do Pacífico ocidental: um relato do empreendimento da Nova Guiné melanésia. SP: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores);
NOSKIER, A. LDB: A Nova Lei da Educação. Curitiba: Secretária do Estado da Educação do Paraná. s/d;
SARANDY,  Flávio  Marcos  Silva.  Reflexões  acerca  do  sentido  da  Sociologia  no  Ensino
Médio: desenvolver a perspectiva sociológica: objetivo fundamental da disciplina no Ensino Médio. Revista  Espaço  Academico  (2001-2003):  www.espacoacademico.com.br  (acessado em 02/02/2007);
SILVA JÚNIOR, J. dos R.. Mudanças Estruturais no Capitalismo e a Política Educacional
do Governo FHC: O Caso do Ensino Médio. IN: Revista Educação e Sociedade, Campinas, v. 23, n.º 80, setembro de 2002, P.203-234.